Sobre a democratização do Brasil e a música popular brasileira

Por: Rômulo Macêdo

O período da ditadura militar no Brasil é, indubitavelmente, um momento notório da história do país, e por isso digno de ser invocado, não por seu modelo político, mas, pelo contrário, para que tal reflexão advirta à geração presente e às futuras acerca do caráter nocivo das ditaduras e de como a democracia é preferível, por viabilizar o exercício das faculdades humanas em sua plenitude, o que abrange a volição, a faculdade da vontade, mediante a qual exercemos a liberdade.

Durante a ditadura militar no Brasil, ocorre a instauração de uma forma de governo que, segundo Aristóteles, na Política, deve ser evitada, devido à desvantagem de que se busque o interesse de um grupo específico, em contraposição ao interesse comum, abordado por Aristóteles em sua Ética a Nicômaco. Nesse tratado, endereçado a seu filho Nicômaco, Aristóteles aponta para o fato de que a arte política, por sua posição, está acima das demais. A política, desse modo, teria essa finalidade mais ampla, de visar o interesse comum, o que, efetivamente, não aconteceu nesse período da história do Brasil.

Entretanto, além da questão do interesse comum, desejamos ressaltar nessa reflexão em que citamos a Ética a Nicômaco de Aristóteles, essa declaração de que, por sua posição, a política exerce influência sobre as demais áreas do saber humano. Pode-se observar esse fato, mesmo num contexto democrático, na Grécia, segundo o testemunho de Platão em sua obra “Apologia de Sócrates”, na medida em que a instância política foi responsável pela condenação de Sócrates; pode-se demonstrar essa realidade também no período medieval, no qual as ciências e artes estavam sob tutela do “poder temporal”, que estava atrelado ao “poder espiritual”, usando uma expressão de Maquiavel, em sua obra “O Príncipe”; e pode-se observar esse fato no período da ditadura militar no Brasil, no qual houve a interferência do poder político através da repressão e censura no campo das artes, como, por exemplo, na ocasião do AI-5, mediante o qual o tropicalismo foi condenado e Caetano Veloso e Gilberto Gil se tornaram alvos de decreto de prisão. Até mesmo Sófocles, o dramaturgo grego, teve sua prisão decretada pela censura brasileira, tamanha a ignorância dos indivíduos que a regiam.

A transição, porém, do período da ditadura militar para a redemocratização do Brasil e a dissolução da censura influenciaram profunda e determinantemente a nova geração da música brasileira, que surgiu em meio a intensa efervescência cultural, juntamente com o advento de grandes festivais como o Rock in Rio, de modo que a produção artístico-musical da década de oitenta foi caracterizada pela liberdade de expressão, pela ousadia, pela crítica social, pelo protesto político expresso, conforme verificamos na obra de artistas e bandas como Legião Urbana, Titãs, Cazuza, etc.

Desse modo, a música popular brasileira encontrou as condições favoráveis para equipara-se aos formatos e tendências em voga no restante do mundo, além de poder se tornar um instrumento democrático de expressão e conscientização sociocultural, assim como também declararam Voltaire e Diderot que a arte deve ter a finalidade de instruir e não apenas reforçar as paixões de um povo, em contraposição ao que propusera Rousseau.

Rômulo Macêdo é graduado em filosofia pela UESC e bacharel em teologia pelo STBG. Atua como cerimonialista no Júbilos Buffet, exercendo ainda as atividades de escritor, professor e músico. E-mail: jubilosbuffet@gmail.com

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